Setor reage com cautela e redireciona exportações diante de medida drástica dos EUA
A imposição de uma tarifa de 50% sobre a carne bovina brasileira anunciada pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump começa a gerar fortes impactos no mercado pecuário nacional. Com a medida programada para entrar em vigor no dia 1º de agosto de 2025, frigoríficos brasileiros como JBS, Marfrig e Naturafrig já suspenderam o abate de bovinos destinados aos Estados Unidos e buscam alternativas comerciais em países como China, Chile e Oriente Médio.
Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), mais de 30 mil toneladas de carne bovina estão em trânsito ou aguardando liberação nos portos, totalizando cerca de US$ 150 milhões. O temor de prejuízos com a nova alíquota mobilizou o setor, que interrompeu de forma imediata as operações voltadas ao mercado americano.
Alberto Capucci, vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Frios e Carnes de Mato Grosso do Sul (Sincadems), revelou que os próprios compradores norte-americanos suspenderam as aquisições. “Tudo foi paralisado logo após o anúncio. Não há como absorver esse custo extra”, afirmou.
Consequências no mercado doméstico
Com a sobreoferta de carne bovina no mercado interno, especialmente em um período de abate mais intenso por conta da seca, o setor começa a observar uma pressão sobre os preços pagos ao pecuarista e ao consumidor final. Jaime Verruck, secretário da Semadesc/MS, alertou: “A recolocação dessa carne no mercado doméstico tende a derrubar os preços da arroba e da carne nas gôndolas”.
Embora os EUA representem cerca de 7,3% das exportações brasileiras de carne bovina, sua participação é considerada estratégica. Em 2024, os norte-americanos importaram US$ 235,5 milhões em carne bovina produzida em Mato Grosso do Sul, volume equivalente a 49,6 mil toneladas. Com o novo tarifaço, a taxa efetiva superará 76%, considerando os 26,4% já cobrados acima da cota de 65 mil toneladas anuais, tornando as exportações inviáveis.
Reação governamental e diplomática
Diante da gravidade da situação, o Governo Federal instaurou um Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais, reunindo-se com representantes do agro e da indústria para traçar estratégias. Entre as ações em análise estão o pedido de prorrogação da entrada em vigor da tarifa e a busca por acordos com empresas e entidades norte-americanas.
Jaime Verruck defende que o governo evite medidas de retaliação imediatas: “Precisamos de tempo para adaptar os contratos e redirecionar a produção. O momento exige cautela e articulação diplomática”.
Reflexos no mercado americano
O tarifaço também poderá ter efeitos colaterais nos Estados Unidos. A carne brasileira é amplamente utilizada pela indústria de hambúrgueres em razão do preço competitivo. Estimativas indicam que a tarifa pode elevar o custo do quilo da carne importada em até US$ 1,50, gerando repasse ao consumidor final.
Considerações finais
A decisão de Trump expõe a fragilidade do agronegócio brasileiro diante de disputas geopolíticas e tarifárias. A reação imediata dos frigoríficos evidencia a dependência de mercados externos e a urgência de estratégias de diversificação comercial. O Brasil agora busca mitigar os danos e manter sua competitividade em um mercado global cada vez mais volátil.