Rebanho norte-americano em queda e pressão inflacionária interna desafiam estratégia de Trump
Apesar das ameaças do governo Donald Trump e da iminente entrada em vigor do tarifaço contra o Brasil, os Estados Unidos podem não conseguir abrir mão da carne bovina brasileira tão facilmente. De acordo com análise de especialistas, o encolhimento do rebanho bovino norte-americano pode forçar os EUA a continuar importando do Brasil, mesmo com a tarifa adicional de 50% prevista para agosto.
Nos últimos anos, os EUA enfrentaram secas severas que impactaram fortemente o pasto e a manutenção do rebanho. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o rebanho bovino americano atingiu em 2024 seu menor nível desde 1962. A oferta interna restrita tem contribuído para a elevação dos preços da carne no mercado doméstico, com impactos diretos na inflação alimentar.
Dependência do Brasil pode continuar mesmo com tarifa
O Brasil tornou-se um dos principais fornecedores de carne bovina para os EUA, superando concorrentes tradicionais como Austrália e Canadá. Com uma produção eficiente, certificações sanitárias reconhecidas e preços competitivos, os frigoríficos brasileiros ocupam papel estratégico na cadeia de suprimentos americana. Apenas no primeiro semestre de 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 1,3 bilhão em carne bovina para os EUA, com destaque para cortes congelados e industrializados.
Mesmo com a imposição de uma tarifa extra, especialistas apontam que a estrutura de custo dos frigoríficos brasileiros ainda pode manter competitividade, especialmente diante da escassez interna e da pressão inflacionária nos EUA. Além disso, parte dos contratos já está firmada com entrega futura, o que dificulta uma interrupção imediata.
Riscos para Trump: inflação e pressão política interna
O tarifaço pode acabar pressionando o próprio consumidor americano. Com o preço da carne em alta, o impacto sobre o bolso da população pode resultar em pressão política contrária ao governo. É um paradoxo: ao tentar proteger a indústria local, Trump pode estimular a alta de preços e descontentamento em ano eleitoral.
“O consumidor americano pode ser o grande prejudicado se a medida não for revista ou calibrada de acordo com as condições de oferta e demanda”, explica um analista do setor.