A crise e o pedido de proteção judicial
Fundada em 1911, a Cotribá é considerada a cooperativa agropecuária mais antiga em atividade no Brasil. Em 2025, a entidade atravessa uma de suas crises mais graves: acumula um passivo estimado em cerca de R$ 1 bilhão, sendo que aproximadamente R$ 400 milhões vencem até o fim de novembro, gerando forte pressão sobre suas contas. Para evitar o bloqueio de contas, penhoras de ativos e execuções imediatas, a cooperativa ingressou com um pedido de tutela cautelar na Justiça da comarca de Santa Rosa (RS), buscando suspensão temporária das cobranças.
O risco não era apenas financeiro, a cotribá reúne cerca de 9,5 mil associados, atende a milhares de produtores rurais e mantém uma estrutura ampla com unidades de armazenagem de grãos, comércio agropecuário, indústria de rações, postos de combustível, supermercados e outras atividades essenciais ao agronegócio no Norte gaúcho.
A decisão judicial inédita e o “fôlego” concedido
No dia 27 de novembro de 2025, o juiz Eduardo Sávio Busanello, da Vara Regional Empresarial de Santa Rosa, concedeu a tutela cautelar solicitada pela Cotribá. Na decisão, antecipou os efeitos do mecanismo de “stay period” garantindo a suspensão imediata de execuções, protestos e bloqueios sobre a cooperativa por pelo menos 30 dias, prazo durante o qual a Cotribá deverá protocolar formalmente pedido de recuperação judicial.
A justificativa do juiz foi clara: a manutenção das execuções poderia provocar um colapso abrupto da cooperativa, com risco de paralisação das atividades, desemprego e prejuízo para milhares de associados. A decisão é inédita porque coloca uma cooperativa jurídico no mesmo caminho que empresas em crise podem trilhar para renegociar dívidas.
Controvérsias, credores e reação do setor financeiro
Embora a tutela tenha suspendido as cobranças por enquanto, a decisão já enfrenta contestação. O Santander, protocolou agravo no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), pedindo a revogação da liminar e reativação das execuções. Para o banco, cooperativas agrícolas não se enquadram nas leis que regulam recuperação judicial de empresas, e a decisão representaria risco de insegurança jurídica para o crédito rural como um todo.
A contestação marca o início de um embate que pode definir o futuro da cooperativa e também estabelecer precedentes para outras cooperativas em crise. Se a liminar for derrubada, execuções e penhoras podem retornar imediatamente, elevando o risco de insolvência e colapso operacional da Cotribá.
O impacto sobre o agro gaúcho e o sistema cooperativista
Para centenas de produtores, fornecedores e funcionários, a decisão judicial representou um breve alívio ao menos de curto prazo. A suspensão das cobranças impede que a cooperativa interrompa atividades essenciais, como recebimento e venda de grãos, fornecimento de insumos, transporte e toda a rede logística que integra sua operação.
Mas a incerteza permanece. Caso a recuperação judicial seja formalizada e bem-sucedida, a cooperativa poderá renegociar dívidas com prazos mais longos e evitar colapso. Caso contrário há risco real de falência, com consequências drásticas para milhares de famílias no interior do Rio Grande do Sul. O debate também reacende a discussão sobre a adequação da legislação de recuperação para cooperativas, um tema sensível no agronegócio nacional.
O que esperar nos próximos dias
A próxima etapa será o pedido formal de recuperação judicial pela Cotribá, a ser protocolado dentro dos próximos 30 dias segundo a decisão judicial. A partir daí, credores, credenciados financeiros e a Justiça devem definir os rumos da cooperativa — se ela segue como operação ativa, se haverá reestruturação ou se os bloqueios voltarão. A repercussão do caso ultrapassa o âmbito regional: o desfecho poderá servir de referência para outras cooperativas em dificuldades financeiras, abrindo precedente para renegociação de dívidas no sistema agro cooperativista.
Por ora, a Cotribá permanece com um “escudo judicial”, mas o destino final da cooperativa e de seus associados segue envolto em indefinição, com credores mobilizando recursos e o setor observando atentamente os desdobramentos.