Diante das recentes ameaças do presidente Donald Trump de ampliar a tarifa sobre produtos brasileiros, o setor de carne bovina está novamente no centro do debate comercial. Embora os Estados Unidos produzam a maior parte da carne que consomem, a importação de cortes brasileiros é estratégica para complementar a oferta interna e atender à demanda de grandes redes de alimentação e indústrias alimentícias.
Dados do setor
Atualmente, os EUA são o segundo maior comprador da carne bovina brasileira, representando cerca de 12% das exportações totais do país, segundo a Secex. O Brasil, por sua vez, é o segundo maior fornecedor de carne bovina para o mercado norte-americano, atrás apenas do Canadá. O volume adquirido pelos norte-americanos, no entanto, tem oscilado. Em junho, os EUA importaram 18,2 mil toneladas, uma queda significativa em relação aos meses anteriores, devido à incerteza tarifária.
Estratégia norte-americana ou tiro no pé?
O governo Trump anunciou recentemente tarifas de até 50% sobre vários produtos brasileiros, incluindo a carne bovina. Analistas consideram que a medida pode ser um erro estratégico, pois causará aumento de preços internos e pressão sobre a cadeia de suprimentos alimentar nos EUA. A previsão de demanda aquecida no segundo semestre, aliada a estoques reduzidos e custos crescentes de produção, pode agravar a inflação dos alimentos.
Capacidade de substituição limitada
Embora os EUA possuam parceiros como Austrália, México e Argentina, a capacidade de reposição imediata dos volumes brasileiros é limitada. A cadeia de frigoríficos e distribuidores nos EUA está ajustada para operar com cortes e especificações brasileiras, e uma mudança abrupta pode gerar atrasos, elevação de custos e falta de produto em algumas regiões.
Brasil busca alternativas
Com a sinalização do tarifaço, o Brasil tem redirecionado parte dos embarques para a China e outros mercados asiáticos. A China aumentou sua participação nas importações de carne brasileira nos últimos meses, compensando parte da queda nas compras dos EUA. Além disso, países como Emirados Árabes, Chile e Egito também estão no radar das indústrias brasileiras.
Impactos internos no Brasil
A queda nas exportações para os EUA tem impactado diretamente os estados de Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo, principais fornecedores para aquele mercado. Em junho, o volume enviado por Goiás caiu 63%, enquanto Mato Grosso do Sul e São Paulo registraram quedas de 56% e 27%, respectivamente. A Conab alerta que a redução nas exportações pode pressionar os preços internos e afetar o desempenho econômico regional.
O que está em jogo?
Mais do que um embate comercial, o tarifaço é também uma disputa geopolítica. O Brasil, como maior exportador mundial de carne bovina, exerce papel-chave no abastecimento global de proteína animal. Para especialistas, a resistência à imposição de tarifas é estratégica para garantir competitividade, estabilidade do setor e evitar o isolamento comercial.