Pacote tarifário mexicano pode afetar setores industriais e agroexportadores do Brasil
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou um estudo técnico detalhando os potenciais efeitos econômicos de um pacote de tarifas de importação aprovado pelo México que pode impactar fortemente as exportações brasileiras. O relatório aponta que as novas tarifas em análise no Congresso mexicano têm o potencial de reduzir receitas brasileiras em até US$ 17 bilhões, se consideradas todas as categorias de bens envolvidas no comércio bilateral. Essa estimativa inclui produtos industriais e insumos que compõem o cotidiano da pauta exportadora brasileira.
Segundo o documento da CNI, a medida mexicana envolve a aplicação de tarifas de importação mais altas sobre cerca de 983 códigos tarifários, afetando mais de 230 itens brasileiros exportados ao México. Esses produtos somam aproximadamente US$ 1,7 bilhão em exportações movimentadas em 2024, o que equivale a quase 15 % do total vendido pelo Brasil ao país latino-americano no período anterior.
A política tributária faz parte do chamado “Programa de Protección para las Industrias Estratégicas”, defendido pelo governo mexicano como forma de fortalecer a produção local, aumentar empregos e reduzir dependência de importações. A tarifa média proposta pode mais que dobrar em alguns setores, com alíquotas chegando a 50 % em determinados códigos de produtos.
Brasil entre os principais países afetados fora dos acordos de livre comércio
De acordo com a CNI, o impacto não será uniforme entre os parceiros comerciais do México. Na análise setorial, o Brasil aparece como o quinto país mais afetado, atrás de China, Coreia do Sul, Índia e Tailândia. A maior parte dos produtos brasileiros expostos à tarifa mexicana pertence à indústria de transformação, ou seja, insumos intermediários, componentes automotivos, produtos químicos e máquinas, que compõem cadeias complexas de produção.
A CNI destaca que, embora existam alguns acordos comerciais entre Brasil e México esses instrumentos não cobrem a maioria dos produtos afetados. Parte significativa, cerca de 40 % do total potencialmente exposto, não tem proteção tarifária plena ou possui margem reduzida de preferência, o que tende a reduzir a competitividade dos bens brasileiros frente a competidores com acordos de livre comércio mais amplos, como Estados Unidos, União Europeia e Japão.
Impactos diretos para o agronegócio e segmentos industriais
O relatório da CNI enfatiza que o impacto econômico pode se estender além da indústria pesada, afetando também segmentos ligados ao agronegócio, como produtos semiacabados e embalagens de origem industrial utilizadas em cadeias de exportação agrícola. Embora grande parte das exportações brasileiras de commodities (soja, carnes, açúcar) não esteja diretamente sujeita às tarifas mexicanas nesse pacote os efeitos indiretos sobre custos e cadeias produtivas podem se refletir no curto prazo, especialmente em setores que dependem de insumos importados.
Especialistas em comércio internacional consultados por instituições brasileiras ressaltam que tarifas elevadas tendem a reduzir a competitividade dos produtos brasileiros no mercado mexicano, incentivando importadores locais a buscar alternativas regionais ou produtos de países com acordos tarifários mais favoráveis. Esse movimento pode gerar queda de vendas em curto prazo, com possíveis ajustes nas cadeias logísticas e de preço.
Escalada da disputa tarifária e cenário regional
A medida mexicana ocorre em um contexto global de aumento de barreiras comerciais e tensões entre grandes blocos econômicos, como as iniciativas tarifárias recentes nos Estados Unidos e outras alterações regulatórias na região. Nos últimos dias, o Senado mexicano aprovou tarifas elevadas sobre produtos de diversos países asiáticos e outros mercados, em um esforço para proteger a indústria doméstica.
No curto prazo, entre os próximos dias e semanas, as empresas brasileiras exportadoras terão que monitorar de perto o andamento da tramitação legislativa no México, bem como negociações bilaterais que possam suavizar o impacto, já que algumas tarifas negociadas no âmbito dos acordos existentes ainda estão sujeitas à interpretação e aplicação por parte das autoridades mexicanas.
Caminho de negociação e respostas do setor produtivo
A CNI tem defendido esforços para acelerar a negociação de um novo acordo de livre comércio entre Brasil e México, que possa ampliar a cobertura tarifária e reduzir as vulnerabilidades observadas. Segundo a entidade, um acordo mais abrangente poderia não só mitigar os impactos calculados agora, como também fomentar maior integração produtiva e expansão de investimentos bilaterais, com ganho estimado em bilhões de dólares para ambos os países ao longo dos próximos anos.
Além disso, empresários e representantes do setor produtivo brasileiro ressaltam a importância de diversificar destinos de exportação e fortalecer mercados alternativos na América Latina, Ásia e África, diminuindo a dependência de poucas rotas comerciais e reduzindo os riscos associados a variações tarifárias.