Exportadores evitam fechar novos contratos diante de incertezas com os EUA; China e Filipinas surgem como saídas estratégicas
O setor cafeeiro brasileiro, um dos mais tradicionais do agronegócio nacional, enfrenta um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) e da Plataforma Global do Café, o Brasil já deixou de embarcar mais de 450 mil sacas de 60 kg de café apenas em julho, acumulando um prejuízo que ultrapassa R$ 1 bilhão. O motivo: a instabilidade gerada pela decisão dos Estados Unidos de implementar uma tarifa adicional de 50% sobre o produto a partir de 1º de agosto.
Com os EUA representando cerca de 25% das exportações brasileiras de café, a incerteza em torno da aplicação da tarifa tem provocado paralisação de contratos futuros, desaquecimento do mercado spot e postergação de embarques. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), a cadeia logística está travada, com prejuízos diários em diversas frentes da comercialização.
Mercado em alerta e logística comprometida
A alta no custo de internalização nos EUA compromete a competitividade brasileira frente a concorrentes como Colômbia, Vietnã e México. O mercado de café arábica — o mais afetado — sofre não apenas pela incerteza tarifária, mas também pela volatilidade cambial e logística. O preço da saca caiu nas principais praças do país, e produtores relatam dificuldade para escoar o produto.
As tradings relatam que estão evitando fechar novos embarques com destino aos EUA, e parte dos contratos antigos está sendo redirecionada para países como Alemanha, Reino Unido e Índia. A mudança exige logística diferenciada, novos trâmites aduaneiros e renegociação de prazos e condições comerciais.
China e sudeste asiático como saída estratégica
Diante do impasse com os EUA, exportadores começam a buscar novos mercados. Um dos principais destinos em potencial é a China, que já foi responsável por mais de 32% das importações de café brasileiro em 2023. Com um mercado em franca expansão e um consumidor cada vez mais aberto à cultura cafeeira, o país asiático é visto como a principal rota alternativa.
Outro destaque é o crescimento das Filipinas, que segundo dados da GlobalData, deve apresentar o terceiro maior crescimento absoluto em valor de vendas de café quente até 2029, atrás apenas de EUA e Japão. Para o café pronto para beber (RTD), o crescimento no país asiático também está entre os mais acelerados do mundo.
Reação do governo e expectativa para agosto
O governo brasileiro acompanha a situação com preocupação. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, confirmou nesta semana que um plano de contingência será apresentado ao presidente Lula para mitigar os efeitos do tarifaço, incluindo linhas emergenciais de crédito e incentivos à diversificação de mercados.
O Itamaraty segue tentando abrir canais de diálogo com a Casa Branca, mas até o momento, não houve sinalização de que o governo Trump esteja disposto a rever a decisão. A medida, considerada por analistas como de cunho mais ideológico que comercial, poderá ter impactos duradouros sobre a geopolítica cafeeira global.