Endividamento rural atinge patamar histórico
O agronegócio enfrenta uma crise financeira sem precedentes, com produtores se afundando em dívidas acumuladas nos últimos meses. O Banco do Brasil registrou inadimplência recorde em sua carteira do setor rural: 20 mil clientes estão com mais de 90 dias em atraso, e alarmantes 74% deles nunca haviam atrasado pagamentos até dezembro de 2023.
Impacto direto nas contas do banco
Esse estresse agravou fortemente os resultados do BB. No segundo trimestre de 2025, o lucro líquido da instituição despencou 60%, para R$ 3,8 bilhões, puxado principalmente pelo aumento das provisões para devedores, que dobraram, atingindo R$ 15,9 bilhões. O índice de inadimplência atingiu 3,49%, contra 1,32% no mesmo período de 2024.
Razões da crise: clima, juros e insumos caros
A expansão das dívidas vem do calcanhar de Aquiles do agro nos últimos anos: secas em 2023, enchentes em 2024, insumos com preços elevados e juros altos. Esse cenário foi agravado pela pandemia, durante a qual muitos produtores se alavancaram e agora têm dificuldade de rolar suas dívidas.
Uso abusivo da recuperação judicial
A recuperação judicial, inicialmente pensada como um recurso de ajuste para produtores pressionados, acabou se transformando em instrumento de contorno da dívida. Até o primeiro trimestre de 2025, os pedidos cresceram 45%, com 808 produtores ativos nessa modalidade, somando R$ 5,4 bilhões em dívidas vencidas. O banco acusa alguns escritórios de advocacia de incentivarem judicializações prematuras — sem renegociação prévia, estratégia que coloca pressão adicional sobre o sistema financeiro.
Banco do Brasil endurece postura e revisa garantias
Historicamente conhecido pela flexibilidade, o BB mudou sua política. Agora, desapareceu o “café com o produtor” e entraram ações judiciais e execução de garantias. A instituição migrou da penhora de safra para alienação fiduciária, prática mais segura e efetiva. Além disso, passou a ser mais seletivo na concessão de crédito para a nova safra.
Caminhos para recuperação e ajuste de riscos
Apesar do quadro difícil, o banco espera melhora a partir do quarto trimestre, com recuperação das safras e dos preços das commodities. Enquanto isso, busca recuperar R$ 2 bilhões por meio de execuções e provisões. O foco agora é proteger sua carteira, ajustar critérios, racionalizar o crédito e mitigar novos riscos.A crise do agro extrapola o campo e estoura nas contas bancárias. Não é apenas uma questão econômica é um problema jurídico, ético e estrutural. O uso indevido da recuperação judicial e a alta inadimplência forçam ajustes duros, mas necessários, em um setor essencial à economia brasileira.