O calendário de plantio da segunda safra de milho, a chamada milho safrinha, entrou em zona de atenção em diversas regiões produtoras do Brasil, devido ao avanço das chuvas intensas nas últimas semanas, que vem atrasando tanto a colheita da soja quanto a semeadura do milho que se planta logo em seguida, segundo análises meteorológicas e de clima agrícola.
Chuvas e atraso no plantio
As precipitações acumuladas recentemente em importantes áreas produtoras — como Goiás, Minas Gerais, São Paulo, partes de Mato Grosso do Sul e do Matopiba — superaram 80 milímetros em poucos dias, elevando a umidade do solo e dificultando a entrada de máquinas no campo para a semeadura da safrinha de milho. Esse atraso está diretamente ligado ao fato de que as chuvas também atrasaram a colheita da soja, que tradicionalmente antecede o plantio do milho safrinha, reduzindo o tempo disponível dentro da chamada janela ideal de plantio.
Modelos climáticos como o GFS e o ECMWF indicam a persistência de um padrão chuvoso por vários dias em partes do Centro-Oeste e Sudeste, mantendo a pressão sobre as operações agrícolas e dificultando a recuperação do atraso na semeadura. Só no norte de Goiás, por exemplo, há previsão de volumes próximos a 200 milímetros nos próximos dez dias, afetando de forma mais intensa os trabalhos de campo. Em contrapartida, estados do Sul do país, como o Paraná, devem ter chuvas mais abaixo da média, o que pode favorecer a retomada gradual dos trabalhos nessas regiões.
Riscos vinculados ao atraso
A proximidade do fim de fevereiro — período tradicionalmente considerado o limite da janela ótima para o plantio da safrinha — coloca em risco parte da área potencial da cultura. Plantios realizados tardiamente tendem a sofrer maior exposição a condições climáticas adversas na fase de desenvolvimento e florescimento, o que pode comprometer o rendimento final da safra, além de aumentar o risco de estresse hídrico ou fitossanitário. Analistas do setor agrícola já destacaram que volumes expressivos de milho safrinha podem acabar sendo plantados fora da janela ideal, o que historicamente reduz produtividade.
Além disso, o atraso da colheita da soja, combinado com chuvas frequentes, pode reduzir o tempo efetivo de semeadura e limitar a capacidade de alguns produtores completarem todas as áreas planejadas de milho safrinha dentro do calendário agrícola recomendado. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) também já registrou que a redução da área de milho safrinha ou uma menor produtividade efetiva pode levar muitos agricultores a optar por cultivos alternativos, como o sorgo, em áreas onde o milho seria semeado tardiamente neste ciclo.
Balanço regional
O cenário é heterogêneo entre as regiões produtoras:
- Centro-Oeste e Sudeste: predominância de chuvas que dificultam a semeadura imediata;
- Sul: chuva abaixo da média favorece avanço do plantio em alguns estados;
- Matopiba e áreas mais ao norte: umidade elevada continua influenciando o ritmo das operações agrícolas.
Expectativas e próximos passos
Apesar das preocupações, especialistas em clima e agronegócio ressaltam que a umidade aumentada também pode favorecer a germinação e emergência das lavouras já implantadas fora da janela, caso as chuvas diminuam no momento certo e permitam que o milho saia do solo em boas condições. Em muitas safras passadas, mesmo uma parte significativa do plantio ocorrendo com atraso, a cultura se beneficiou da disponibilidade de água no solo — desde que a chuva não persista excessivamente até as fases críticas de formação de grãos.
O mercado agrícola e os produtores estão de olho nos próximos boletins climáticos e no avanço da colheita da soja, que deve liberar áreas para a semeadura do milho safrinha assim que as condições de solo permitirem, na tentativa de recuperar parte do atraso e reduzir os riscos de perda de produtividade.