Alerta do Inmet para o fenômeno climático
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) acendeu um alerta importante para o agronegócio brasileiro: a possibilidade de formação de um episódio de La Niña durante a safra 2025/26. O aviso foi feito pela pesquisadora Lucietta Martorano durante o evento “Perspectivas para a Agropecuária”, da Conab, em Brasília. Segundo ela, o rápido resfriamento das águas do Pacífico Equatorial indica risco crescente de que o fenômeno se manifeste nos próximos meses, embora a neutralidade ainda seja o cenário mais provável. A confirmação ou não do fenômeno deve ocorrer até o fim de setembro, quando os modelos climáticos estarão mais consistentes.
Impactos regionais previstos
Se a La Niña se consolidar, os efeitos no Brasil podem ser bastante desiguais. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, a tendência é de chuvas abaixo da média, associadas a temperaturas mais altas, o que pode comprometer a umidade do solo logo no início da safra e atrasar a semeadura da soja e do milho de primeira safra. Já no Sul, o prognóstico é inverso: o Rio Grande do Sul e Santa Catarina devem ter volumes de chuva acima da média, o que pode favorecer o desenvolvimento de culturas de inverno, como trigo, aveia e cevada, mas também aumenta o risco de excesso de umidade e de perdas por doenças fúngicas.
Riscos adicionais e influência de outros fatores
A preocupação dos meteorologistas não se limita apenas ao volume de chuvas, mas à sua distribuição. Mesmo quando há precipitações dentro da média, se elas ocorrerem de forma concentrada, podem não ser suficientes para sustentar as lavouras em fases críticas. A combinação de déficit hídrico no Centro-Oeste com ondas de calor é vista como o maior risco, especialmente para os estados de Mato Grosso e Goiás, que respondem por grande parte da produção de soja e milho do país. Outro ponto de atenção é a influência do Dipolo do Atlântico — o contraste de temperatura entre o Atlântico Norte e o Atlântico Sul — que pode atenuar ou intensificar os impactos da La Niña. Em anos anteriores, quando o dipolo esteve ativo, houve agravamento de secas na região amazônica e maior frequência de queimadas, o que eleva também os riscos ambientais e sanitários.
Preparação dos produtores e mercado internacional
Para os produtores, a mensagem é clara: a safra 2025/26 exigirá planejamento cauteloso. Estratégias como adoção de cultivares mais tolerantes ao estresse hídrico, manejo do solo para retenção de água, escalonamento de plantio e monitoramento climático em tempo real serão essenciais para reduzir perdas. O setor já viveu impactos severos em episódios anteriores de La Niña, e a experiência mostra que quem se antecipa tende a ter mais resiliência diante das adversidades. Se confirmado, o fenômeno pode afetar não apenas o volume da safra, mas também preços e fluxos de exportação. Menor oferta de soja e milho em áreas-chave poderia sustentar cotações em Chicago, enquanto excesso de chuva no Sul pode impactar a qualidade de grãos e aumentar custos logísticos. Para o mercado internacional, a instabilidade climática no Brasil é fator de atenção, já que o país é o maior fornecedor global de soja e um dos principais exportadores de milho.