O mercado de grãos brasileiro entra no segundo semestre de 2025 com um cenário desafiador, marcado por incertezas cambiais, demanda internacional volátil e uma safra impactada por questões climáticas e logísticas. Soja, milho e trigo continuam sendo protagonistas da balança comercial do Brasil, mas com perspectivas distintas para os próximos meses.
Soja: Estoques Apertados e Expectativa de Alta
Com a colheita da safra 2024/25 praticamente encerrada, os estoques de soja estão mais apertados que o previsto inicialmente, devido à quebra em regiões do Centro-Oeste causada por estiagens. Segundo a Conab, a produção deve fechar em 147 milhões de toneladas, número abaixo da expectativa inicial de 154 milhões.
A demanda da China segue firme, e a taxa de câmbio acima de R$ 5,40 favorece a competitividade do produto brasileiro. O mercado já precifica uma possível retomada de preços na Bolsa de Chicago, com contratos futuros da soja batendo US$ 12,50/bushel para entrega em setembro.
Milho: Pressão da Safrinha e Estoques Elevados
A colheita da segunda safra de milho está em curso, com 15% da área do Centro-Sul já colhida, segundo a AgRural. O clima úmido atrasou os trabalhos, mas a expectativa de produção permanece robusta, com projeções acima de 113 milhões de toneladas. Isso pressiona os preços internos, que estão entre R$ 55 e R$ 60/saca nas principais praças.
Apesar do avanço da exportação — que deve bater 40 milhões de toneladas neste ano, segundo a Abiove — os estoques elevados e a concorrência com a Ucrânia e os EUA limitam qualquer valorização mais forte no curto prazo.
Trigo: Dependente das Importações e da Argentina
O trigo brasileiro vive um cenário delicado. A produção interna não cobre o consumo nacional, e a dependência da Argentina — que enfrenta seca e instabilidade política — deve manter os preços firmes. A tonelada do cereal importado está cotada a US$ 270 FOB, e o dólar alto eleva ainda mais o custo para o moinho brasileiro.
O plantio da nova safra já começou no Sul do país, com áreas estimadas em leve crescimento. A Conab projeta 9 milhões de toneladas de produção, com foco em qualidade industrial e menor dependência externa até 2026.
Câmbio: O Fator Decisivo
Com o dólar oscilando entre R$ 5,30 e R$ 5,50, os produtores ganham em competitividade nas exportações, mas também enfrentam aumento no custo de insumos importados. A possível elevação da Selic para 15% ao ano agrava o custo de capital e pode limitar investimentos em armazenagem e logística, essenciais para a eficiência da comercialização de grãos.
O segundo semestre será marcado por volatilidade e necessidade de estratégias comerciais mais afinadas. Quem tiver estrutura de armazenagem e capacidade de segurar o grão poderá aproveitar melhores janelas de preço. Exportadores devem acompanhar de perto as movimentações cambiais e as tensões geopolíticas que influenciam os preços globais.